Abel: «O que esta equipa mais precisa é de ser campeã»ENTREVISTA EXCLUSIVA DO LATERAL A RECORD
RECORD – Que balanço faz das 12 jornadas da Liga já disp***das?
ABEL – Perdemos pontos que não estavam nos nossos planos, mas logicamente que num campeonato com 30 jornadas é difícil ser sempre regular. Ainda assim, em função do que se tem passado, os crónicos candidatos ao título estão todos juntos e ainda não há nenhum que se destaque ou que seja mais favorito. Isto para além de um “outsider” que continua ali por mérito próprio. No fundo, acredito que o equilíbrio continuará até ao final da prova. Em relação ao que foi a época passada, sem precisar números, tínhamos uma diferença muito maior para o primeiro lugar. Por isso é que desejávamos chegar a esta fase melhor do que na temporada passada. Não estamos na posição ideal porque perdemos pontos que não estávamos a contar, nomeadamente o empate em Paços de Ferreira, a derrota em casa com o Leixões e esta prenda que o Pai Natal trouxe com a Académica, um empate num jogo em que, em função do que se passou na segunda parte, o Sporting justificou outro resultado. No fundo, a finalidade é ser o mais regular possível, com a consciência que iremos continuar a ter altos e baixos. Por outro lado, é importante manter esta proximidade a todo o custo porque o nosso objectivo é chegar ao final da Liga em primeiro lugar. Para já temos de correr atrás desse lugar, mas a mentalidade é de campeão.
R – O primeiro classificado justificou esta vantagem?
A – A regularidade é sempre o segredo da classificação, mas nesta altura também não se pode dizer que há uma equipa que tenha atingido o ritmo desejado. Por agora o Benfica está no topo, mas o que se tem assistido é que todos os grandes têm perdido pontos esporadicamente. Não tem existido uma supremacia. Até isto é curioso porque quer Sporting, como o Benfica ou o FC Porto têm sido homogéneos a perder pontos. Acredito também que há uma equipa que pode ainda entrar nesta corrida, que é o Sp. Braga. Tenho visto vários jogos e, no plano teórico, sem ferir susceptibilidades, até porque o Leixões está na posição que está por mérito próprio, julgo que continua tudo em aberto. O Benfica ainda não perdeu, mas não conseguiu ganhar uma vantagem que permita conforto. O FC Porto teve uma série de vitórias assinalável, mas nem sequer está em primeiro lugar e depois temos o Sporting que é uma das defesas menos batidas do campeonato e também está no topo. Ninguém se destacou.
R – O que é necessário ao Sporting para melhorar o rendimento?
A – Trabalhamos todos os dias com o intuito de estarmos sempre mais perto do que é perfeito e julgo que a base do sucesso continua por aí. Só que do outro lado também há equipas com valor. O que vemos agora é que há muita competência e qualidade nos adversários. De há 10 anos para cá os outros clubes ganharam condições de trabalho, bons treinadores e jogadores. Logicamente isso faz toda a diferença, porque há alguns anos seria impensável ver o Leixões ir vencer a Alvalade ou ao Dragão e hoje em dia é uma situação menos surpreendente. Aliás, até considero estarem reunidas as condições para que isso possa acontecer com mais frequência, pelo que a diferença dos candidatos ao título está nos poucos jogadores com capacidade para mudar o rumo de um jogo em função da sua qualidade. Acima de tudo não há um crescimento por parte das equipas grandes, mas sim um aproximar dos mais pequenos. Por esta altura, noutros tempos, já existia uma diferença grande entre os primeiros classificados e o resto da tabela e o que assistimos agora é que está tudo mais nivelado. Já não há papões. Não é que os pequenos tenham menos respeito, mas é uma questão de filosofia em virtude de toda a estrutura, o que faz com que esses clubes apresentem-se sempre com a ambição de vencer qualquer jogo.
R – A expectativa de conquistar o título mantém-se?
A – Não vou mentir e tenho a certeza que não hei-de sair do Sporting sem ser campeão. Em termos desportivos é esse o objectivo que mais sede me dá e também sinto que é a grande ambição deste grupo. No fundo o título é aquilo que esta equipa mais precisa, porque um olhar atento sobre o plantel do Sporting revela que há poucos campeões, pelo que todos nós temos uma enorme vontade de acabar a época com o título na mão.
R – A arbitragem tem sido um tema bastante recorrente em Alvalade. Nesse contexto sublinha a ideia exteriorizada de que o Sporting tem sido prejudicado?
A – Antes de mais quero dizer que sou da opinião que o futebol é o reflexo da sociedade. A liga inglesa é melhor porque a base da sociedade inglesa é mais evoluída. Quando digo isto refiro-me a todas as condições de vida, que vão desde o nível financeiro ao cultural. Quando alguém diz que temos um mau campeonato, pouco competitivo, os adeptos são fracos, eu respondo, temos o que temos em função das bases que sustentam a nossa sociedade. Em relação aos árbitros, não é um meio onde me sinta muito à vontade, mas tenho a minha ideia e o que posso dizer é que o Sporting tem sido, de facto, prejudicado. Agora também acho que, tal como nós jogadores erramos, seja um passe, um golo de baliza aberta ou uma grande penalidade, acredito e não posso pensar de outra maneira, que os nossos árbitros também estão sujeitos à condição do erro humano. Em função do que se tem passado, as arbitragens não têm sido muito felizes e o Sporting tem sido o mais prejudicado, mas não acredito que seja premeditado porque todos temos o direito a falhar.
R – Considera que o plano de profissionalizar a arbitragem será benéfico para o futebol?
A – Esse é um assunto muito vasto.Tenho amizade com alguns árbitros e quero dar um par de exemplos para demonstrar que há muitas outras coisas neste meio. Profissional ou não profissional é uma questão que pode ser sempre discutida, embora acredite que um profissional é capaz de ser sempre mais competente. Mas às vezes tem muito a ver com as próprias regras que são impostas pelas leis de jogo e a defesa que o árbitro terá depois. Por exemplo, as leis dizem que quando há dúvidas num fora de jogo, os árbitros devem beneficiar quem ataca, mas na dúvida o que acontece é precisamente o contrário. Porquê? É muito simples. Se um assistente deixa passar um fora-de-jogo de 2 cm vai receber má nota e na próxima semana fica de fora. O que é que faz então? Na dúvida levanta sempre a bandeirola e fica logo ali defendido. Outra situação concreta passou-se com um dos golos que sofremos frente ao Barcelona, após uma reposição rápida da bola, num lance igual ao tento que marcámos frente à Académica e que foi invalidado. Ora isto levanta muitas dúvidas. Afinal o que é que está certo e o que é que está errado? Para os árbitros portugueses é uma coisa e para os estrangeiros é outra? Não há uma lei uniforme. São coisas muito dúbias. E há ainda outro factor de instabilidade importante. Em casa vemos as repetições várias vezes e decidimos com rigor, mas eles têm de decidir tudo num segundo. Escolha que pode estar certa, como errada, mas a qual os árbitros procuram sempre fazer em sua defesa.
Jogos ao domingo para combater a crise
R – Recentemente, frente ao Marítimo, para a Taça da Liga os adeptos não corresponderam às expectativas e as bancadas em Alvalade estiveram despidas. Há alguma razão especial para justificar esta fraca afluência?
A – Era um contexto propício para que os adeptos pudessem ficar em casa e justifico isso com vários aspectos. Que vão desde o facto que são as televisões que marcam os horários dos jogos, depois atendendo à hora desse jogo, ao frio que estava e até pelo preço dos bilhetes, já para não falar da crise que se instalou na sociedade. Aliás, na mesma medida até o Benfica no último jogo para a Taça UEFA passou por uma situação semelhante. Isso preocupa-nos porque não é muito normal um clube como o Sporting ter tão pouca gente a assistir ao jogo.
R – Quais são as soluções para trazer mais gente aos estádios?
A – Se querem atrair público se calhar é melhor marcarem jogos para o domingo à tarde, pois, em Novembro, Dezembro e Janeiro, se a partida for à noite o mais provável é as pessoas ficarem em casa a ver na televisão. Pessoalmente preferia outros horários por tudo e também porque já fui adepto e sei que é melhor ver um jogo à tarde do que à noite. Não podemos esquecer também o preço dos bilhetes. Como dizia o meu pai, é preferível muitos 100 do que poucos 200 de modo a ter a mesma receita, mas mais assistência. Há que ter a noção que são poucas as pessoas que têm o hábito de ir ao futebol sozinhos. Neste contexto, para quem tem um salário normal ir ao futebol é extremamente caro. Temos de comparar quanto custa levar uma família ao cinema e ao futebol. O futebol é incomparavelmente mais caro.
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